Chamo-me Livro Sagrado, tenho mais de dois mil anos. muitos me leram, uns por curiosidade, outros por estudo, já alguns, para pontuarem seu viver.
Quem me lê, vê tantos cenários diferenciados, desde o deserto ao oásis, dos povoados, às cidades de pedra.
Umas pessoas sentem perder a fé, tem tanta figura já explicada pela ciência ao longo dos milênios... parece que estou em desuso, fora do tempo contemporâneo. Além do mais, não gostam muitos de serem questionados em seu modo de proceder, teriam que mudar de vida e não estão mais dispostos. Eu dou trabalho aos duros corações.
Outros seres humanos, justificam suas proposições, alegando estarem sabidos como verdadeiros doutores da lei. Têm fariseus que me carregam embaixo do braço ou abraçado ao peito, mas não me vivem, escolhem as páginas ou trechos do que lhes apetecem somente.
Já encontrei quem me deixasse morar no sótão da sua residência o ano quase inteiro, fui presenteado por pessoas de mais idades aos mais jovens e eles não me querem mais em suas estantes, muito menos em seus corações.
O tempo encheu-me de poeira, fui ficando amarelado, como a cor do sol que só via, em muitos anos, no final do ano, quando arrumavam um pouco a bagunça do lugar onde me colocaram e o astro-rei invadia o espaço me dando um pouco de alegria. Aí sim eu sonhava em subir as escadas e tomar um lugar de destaque no Natal para enfeitar a casa dos meus donos.
A moça que fazia a limpeza, me pegava, tirava meu pó, me dava um ósculo e me punha no centro duma mesinha com toalhas vermelhas com bordados dourados. Enquanto limpava a casa, os donos passavam o dia fora nas compras de final de ano e ela me lia com devoção, Eu me sentia útil de novo, sabia que ela me amava e iria aplicar à sua vida o pouco do que me lia entre seus afazeres e outros.
Enchia seu coração de amor ao próximo.

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